Às vezes a gente se esvazia, feito uma piscina suja, feito um bêbado com azia; se enche de solidão, almoça tripas e coração, estômago vazio no jantar e na ceia doses de redenção.
Às vezes a gente se esvazia tanto que falta ar, e nos tornamos apenas um saco vazio. Então a gente se enche de lixo e precisamos nos desfazer novamente!
Um formigamento passa pelo corpo da mulher que se encontrava morta. Foi morta diversas vezes, pelos olhares vazios, morta sem agasalho embaixo de um teto frio, morta pela superstição em uma sexta-feira treze. Não dá pra contar quantas vezes se morre estando vivo, mas dá pra sacar muita gente por aí em estado vegetativo. Passos largos, passos inseguros, troncos carregados, troncos curvos. Na curva de cada trecho, vestimos uma luva, encontramos um desfecho, do que não tem trinco, assim como a tarraxa perdida de um brinco. No metrô, no ônibus, na sala de espera, rola a dança da cadeira de gente descadeirada, nos dentistas públicos,bocas escancaradas, bocas desdentadas, e na saída a ladeira que encerra. Na última cena, a serra corta a mulher já torta, dias difíceis que muitas vezes vezes nem se nota. A última nota desafina, morreu a mulher, morreu sua menina, ela deixa de ser mais um talher e se torna uma rima.
Todo o tempo tentam encaixotar a minha cabeça,diante de tanta miséria, somente querem que eu esqueça, que eu não me aborreça, que eu me torne alguém na vida, que eu finja não sentir dor e estanque a ferida, que eu cresça, que eu sufoque os meus sentimentos, que eu desapareça, que não formule argumentos,esperam que eu ache tudo isso natural e apenas obedeça.
Encaixotar um pensamento, quanto custa? desintegrar o momento o que é que te custa? Eu sinceramente, só espero que diante de toda corrupção, você não espere e cuspa!
Tentar trancafiar os meus olhos torna o cotidiano um lugar profano.  E o que é que te torna? Por que permanecer assim, tão morna? Por que continuar a se deixar levar  por quem te suborna?
Faca nas pernas de quem rasteja, guilhotina nas cabeças mortas, na mosca varejeira da porta da sua visão torta.
Eu quero sentir os meus olhos queimar, deixar a poluição entrar, e o meu coração inchar, e o peito sufocar, pra eu poder gritar e transformar o que não se pode negar.
Todo descuido do mundo diluído em soda caustica.
As veias se tornam tempestivas, enquanto a vizinhança se disfarça entre as noites festivas. O que se vê nessas noites é um pouco de um tudo insano, um tudo que não se mede, um pouco do que não se perde.
São tantas pessoas, as visões se embaralham, os mundos se espalham, e cada parte se mistura em cada vida que se costura.
Este corpo desorientado com a invasão de habitantes estranhos e com as veias sinestésicas congestionadas, é um habitante estranho dentro de si mesmo.
As artérias pulsando novos ruídos, passeiam por mim o som de outras almas.
Os gostos passados manchados na memória enganam a saudade, me deixam pela metade, tamanha é a maldade e o gosto da minha vontade.
Pelas entradas, recortes de outras vidas se colando um pouco em cada pessoa que passa. Passam tantas, algumas deixam rastros, algumas saem recortadas, outras não se sente quase nada.

É preciso despir os olhares velhos do passado, chamar as visões que por descuido se desprendem,visões que em algum momento flertam com a ilusão de ótica e se lascam!
A minha visão esperneia em um futuro incerto, sucumbe à dúvidas esfumaçadas entre um véu de tintas gastas.
As minhas cores tão gastas, as minhas cores descascadas desnudando o muro da minha casa, a aquarela que possuo na alma, desagua, desaba, mas não se acaba.
Agora, me sinto pálida com tantos rostos sem expressão, com tantas vozes sem coração. Me sinto como os tijolos que sobraram da reforma, quebrados pelo chão; tijolos que desconstroem a construção, meu corpo desconstruido em mutação!