O corpo, um teatro abandonado, as cortinas se fecharam pra você. Agora o cinema mudo toma conta de toda a tela, movimentos e expressões para justificar a falta de palavras. Só a trilha sonora dizendo por você, na tentativa de que alguém decifre a melodia. O figurino velho, em trapos ainda te vestem de nostalgia. As costureiras estão mortas, eu  preciso costurar os meus vestidos, mas as agulhas se contorcem e machucam. Eu visto a minha nudez rasgada e todos os cortes expostos, as marcas de uma cena que já não existe. Somente os passos na mesma trilha, caminhando na melodia da cidade.
corpos em movimento no vazio do salão, um milhão de olhares na multidão.danças embalam a selvageria da canção,do coração,danças de luxuria e solidão. despersonificação de personagens, cada corpo uma embalagem,nos banheiros, fluidos para todos os tipos de engrenagens.

Corações Verdes Fritos

Tenho uma plantação de árvores de corações verdes no quintal, e eles crescem tanto que estão sempre caindo antes do tempo, criando rachaduras, rompendo fechaduras, e quando caem são como gotas de lamento.
Nem mesmo o concreto suporta raízes tão fortes,forma em sua superfície linhas de expressão desalinhadas e conectadas desordenadamente, entrecobertas por manchas de abandono. Quando me canso da ansiedade por comer frutas verdes, as coloco no forno e extraio todo o seu líquido cansado, é quando elas passam do ponto e ficam jorrando sua essência descuidada, então faço mais uma refeição passada e eu fico enjoada e cheia de frutas estragadas.
Massacre da serra elétrica nas árvores do meu quintal!


Vida de Banheiro

Caras de nojo,de estorvo,de felicidade,ansiedade.Choros,fugas e confabulações.Os banheiros são como templos terapêuticos,como cantava cazuza,a igreja de todos os bêbados.Momentos de solidão,devassidão,desabafos,fofocas e tramitações,os banheiros são refúgios,um lugar a parte da festa,quando não, a própria festa.As amizades rápidas nas filas,as conversas banais,as funções,os vomitos decorrentes de toda alegria mascarada até então,até o momento em que nos olhamos no espelho,quando nos percebemos ou desfocamos nosso reflexo.Cada feição distinta uma da outra.Cada uma com o seu sol ou com a sua treva.Em cada olhar uma oração muda, de todo o sentimento que em si carrega.
Às vezes a gente se esvazia, feito uma piscina suja, feito um bêbado com azia; se enche de solidão, almoça tripas e coração, estômago vazio no jantar e na ceia doses de redenção.
Às vezes a gente se esvazia tanto que falta ar, e nos tornamos apenas um saco vazio. Então a gente se enche de lixo e precisamos nos desfazer novamente!
Um formigamento passa pelo corpo da mulher que se encontrava morta. Foi morta diversas vezes, pelos olhares vazios, morta sem agasalho embaixo de um teto frio, morta pela superstição em uma sexta-feira treze. Não dá pra contar quantas vezes se morre estando vivo, mas dá pra sacar muita gente por aí em estado vegetativo. Passos largos, passos inseguros, troncos carregados, troncos curvos. Na curva de cada trecho, vestimos uma luva, encontramos um desfecho, do que não tem trinco, assim como a tarraxa perdida de um brinco. No metrô, no ônibus, na sala de espera, rola a dança da cadeira de gente descadeirada, nos dentistas públicos,bocas escancaradas, bocas desdentadas, e na saída a ladeira que encerra. Na última cena, a serra corta a mulher já torta, dias difíceis que muitas vezes vezes nem se nota. A última nota desafina, morreu a mulher, morreu sua menina, ela deixa de ser mais um talher e se torna uma rima.
Todo o tempo tentam encaixotar a minha cabeça,diante de tanta miséria, somente querem que eu esqueça, que eu não me aborreça, que eu me torne alguém na vida, que eu finja não sentir dor e estanque a ferida, que eu cresça, que eu sufoque os meus sentimentos, que eu desapareça, que não formule argumentos,esperam que eu ache tudo isso natural e apenas obedeça.
Encaixotar um pensamento, quanto custa? desintegrar o momento o que é que te custa? Eu sinceramente, só espero que diante de toda corrupção, você não espere e cuspa!
Tentar trancafiar os meus olhos torna o cotidiano um lugar profano.  E o que é que te torna? Por que permanecer assim, tão morna? Por que continuar a se deixar levar  por quem te suborna?
Faca nas pernas de quem rasteja, guilhotina nas cabeças mortas, na mosca varejeira da porta da sua visão torta.
Eu quero sentir os meus olhos queimar, deixar a poluição entrar, e o meu coração inchar, e o peito sufocar, pra eu poder gritar e transformar o que não se pode negar.