Quando gente vira poste,quando poste vira gente

O olhar se desfez em fumaça,ficou turvo,um pouco sem graça,percebendo a iniquidade que o cercava,eram vultos rápidos demais para notá-los,espertos demais para alcançá-los,tudo que podia sentir era uma grande sensação de perda,perda de identidade,de amor,de alma e já não havia mais espírito que suportasse,o espírito da coisa,de nada mais valia.São coisas demais,não havia visão que suportasse,não havia cachaça que aliviasse.Ele até que pediu suporte,mas com tantos cortes...
Acabou por se agarrar num poste e fez dele seu suporte,pois,com tanto peso de mundo,com o pesar que lá no fundo,desequilibrava,não havia pernas que suportassem,nem drogas que acalmassem.Sem visão,sem direção,desnorteado!Vozes,sussurros,gritos,choros,passos de pressa,passos amarrados,gargalhadas,grilhões,tiros,beijos,palavras vazias,ásperas,doces,amargas,ácidas,assobios.Ele sentia vibrações,mas já não ouvia.Nem mesmo seu grito de agonia...
Em vão!
Agora não passava de um poste,ele foi tomando a forma de seu instrumento de resistência e,realmente postes não vêem,não ouvem,não andam,não gritam,não assobiam.Ficou ali, estancado feito estaca,o peito cimentado,a alma fraca.Agora não amolaria mais ninguém,pensou:Nem faca!
O olhar acinzentado que não refletia,tinha esperança,mas ele sabia,ninguém enxergaria.
Alguém que lhe estendesse a mão,que tivesse um bom coração,tanto concreto que havia se esquecido de sua condição...
Postes não possuem mãos!
Eu vou despedaçar a sua pornografia ingrata
A sua visão de sucata
Eu a jogarei no lixo
Seus desejos pobres
Eu vou vendê-los
Tão barato quanto a sua carne
E todos esses sentimentos traídos
Moídos desastrosamente
Não sei o que fazer com eles
Irei juntar os miúdos que você se esqueceu de levar de mim
Juntar cada pedaço do seu amor
Desse amor descuidado
Coitado!
a gente pode escolher o peso ou a falta de impacto
podemos ser a flor ou o cacto
podemos afundar na àgua ou na terra
paz ou guerra
o espelho que reflete ou os seus cacos
tropeçar no chão ou no buraco
ser uma boneca ou um palhaço
o silêncio ou o estardalhaço
são todos animais rondando suas presas
enfeitiçando com seus movimentos sedutores
suas poses de atores
dá pra ver brilhando aquelas enormes teias
suas vitimas indefesas
é quando as paixões sussurram
eles vem tão devagar
prontos para te pegar
é quando os invasores te inundam
já é tarde para cair em si
a cara esmurrada
a carne desnuda
as ilusões retalhadas
foram tantas as pancadas que eu nem vi
se ao menos antes de me adentrar eu pudesse consentir
então eles surgem com seus rodos a fim de me enxugar
se ao menos aquelas mãos eu pudesse decifrar
eu nem mesmo as pude sentir
as emoções salivavam na boca vazia
causando náuseas no estômago oco
o soco
na minha boca se desfazia

Entorpecência

A bebedeira cáustica do malandro
vem tombando,quebrando as vidraças da visão
Aquela embriaguez ensandecida
transpassando a lucidez surda
Arranca tímpanos, estoura o peito
Maltrata a alma
Com seu grito torpe
Palavras errantes, desconcertantes
Desconcertando os passos
O caminho distorcido do fraco
Dos pés enfiados num buraco
A ilusão sorrateira
Emergindo da noite traiçoeira
É quando lhe ofuscam os sentidos
Se perde o riso
Os olhos rasos d'agua
Um equilíbrio bambo na tábua
A secura sem propósito de um beijo
Tal como o gosto estragado do queijo
Enxergar com os olhos da escuridão do outro
Desmedir a visão por tão pouco
Se perder em vários rostos
Vagar por tantos corpos
Habitar uma vida em cada copo
As unhas afiadas da mulher louca
Sua boca desfigurada e a voz rouca
A transmissão da rádio anuncia sua confusão
Nas ruas escuras vem andando sua solidão
Junto às sombras noturnas
Estende-se as mãos
Á uma companhia perversa e sem coração
Na noite passada, roupas de cama desarrumadas, vestido amarrotado, peito desabotoado, a maquiagem borrada, gemido estancado,abafado no travesseiro,as lágrimas inundando o corpo junto à água fria do chuveiro, no banheiro, a privada se desfez com a imagem revoltada do meu jantar.
Na noite passada, fui comida mal passada!
Abriram o zíper que há entre minhas pernas, fui comida mal passada!
Eu me tornei o meu jantar!

Faça,Fuce,Force

"Faça, Fuce, Force
Mas!
Não fique na fossa
Faça, Fuce, Force
Mas!
Não chore na porta...
Faça, Fuce, Force
Vá!
Derrube essa porta
Trace, Fuce, Force
Vá!
Que essa chave é torta..."

Raul Seixas