A morte quando rouba a alma,deixa os olhos negros, feito duas jaboticabas...
Da terra que te cobre,brotarão flores
Eu transformarei suas cinzas,numa bela roseira
e enfeitarei a sala
Cada galho será uma parte sua,uma lembrança
uma parte do meu amor
e em cada folha verde e amarela serão os seus olhos
as suas marcas pelo meu corpo
e te eternizo em mim
Farei dos seus pedaços uma pulseira
e te levarei comigo
Dos meus sentimentos,
te escrevo esses versos
Da minha saudade
cada botão que se abrirá

À minha Nancy



Eu sempre fui louca por gatos,não podia ver um na rua que trazia pra casa,eu não me aguentava,não aguentava ver aquelas criaturinhas abandonadas e,por conta disso,minha mãe ficava louca comigo.Parecia uma maldição,perdi vários gatinhos,com tristeza,mas com certo desapego ainda,já que o tempo de convivência sempre havia sido curto demais.Eu ainda estava no colégio,mais especificamente,na aula de educação física,eu tinha acabado de perder uma gatinha e queria outra a todo custo.Ela estava lá,jogada no mato,atrás da quadra,tão sozinha e indefesa,tão pequenina,nem tinha desmamado,seu miado era sofrido,estridente.Não tinha completado 1 mês,provavelmente foi abandonada pela mãe.Claro que eu a peguei.A trouxe para casa de bicicleta,no caminho,ela se grudava a mim feito um bichinho acuado,dava pra sentir que era arisca,que ainda tava sentida.Quando a encontrei,estava cheia de remela nos olhos e por conta disso não os abria,cheguei por alguns instantes,a achar que fosse cega.Estava cheia de carrapichos pelo corpo e eu cheia de vontade de cuidar dela.Como ainda era muito novinha,comprei uma mamadeira ,para dar leite.Para a sarna, óleo com enxofre,para as remelas,àgua boricada.Eu, assim como pelos felinos,era enlouquecida por punk rock e adorava Sid & Nancy,então a batizei de Nancy.Quando ela foi crescendo me deu vários sustos com seus sumiços gatunos,eu ficava desesperada,era ela voltar que quase a sufocava de tanto apertar,mas gata arisca que era,me deixava sempre toda arranhada,mas eu não me importava.Todos os dias quando chegava do colégio,ela vinha em minha direção e me escalava,literalmente,começava da calça e vinha até o pescoço,acho que só não chegava até o cabelo,porque eu a tirava.Fiquei uma época morando com meu pai ,e quando vinha à casa da minha mãe,ela não "falava" comigo,me mostrava os dentes,ela ficou magoada,ficou rancorosa até,eu diria.Mas o tempo em que estive fora,ela dormia sempre no meu quarto,mas não,não é porque gatos se acostumam com o lugar,era porque aquele lugar era dela.Era nosso.Assim que voltei para casa,ela voltou a ficar de boa novamente,e retomamos nossa relação.Acho que ela se sentiu abandonada por mim,lembranças de sua infância.Durante à noite,ficava perambulando por aí,então eu deixava as janelas abertas,que é pra quando ela voltasse,fosse para o quarto.Às vezes me acordava no meio da noite com miados pedintes,para fazer carinho e era tão bonitinha,tão fofinha.Sempre que eu chegava de algum lugar vinha me receber,se esfregar entre minhas pernas.Deitava no meu colo,se irritava,me arranhava e saia correndo feito uma maluca, e ela me irritava tanto quando fazia isso.Se eu fosse fazer uma lápide escreveria:Aqui jaz uma gata selvagem que gostava de sorvete.Sua personalidade era forte,queria que hoje ela tivesse sido forte assim.Sabe,uma ironia,uma piada de humor negro, fui dar vacina contra raiva,pra que não acontecece nada à ela,mas acabou tendo um choque anafilático.Rasguei o grito em praça pública.Foi tão triste ver os seus olhos verdes,ficarem pretos,seu brilho,ficar fosco.Ela era minha companheira,minha menina dos olhos,eu podia ver cada sentimento dentro deles,os olhos de gato mais lindos que eu já vi.A plantei no jardim de casa,vou plantar uma roseira junto dela.Eu pedi à Deus e até à São Francisco de Assis para que guarde,proteja e abençoe sua pequena alma atormentada.Eu a amava tanto.À minha Nancyta,que descanse em paz!
A foto tá ultrapassada
passada à ferro
passada à limpo
As idéias ultrapassando as fotos
idéias sujas passadas à limpo
As idéias e as fotos
mudando de foco
indo pro ferro
carimbadas no mundo

A Costureira e o Restaurador

"A menina encaminhou-se para lá e começou a brincar com uns cubos coloridos. Depois começou a crescer crescer crescer. Não se casou, não teve filhos, comprou um automóvel, um apartamento de cobertura em Copacabana e uma casa em Poços de Caldas. "
Continuando a história...

Mas um dia ela sentiu os poços se secarem,e as caldas já não possuiam o mesmo gosto.O gozo se tornara cínico.Percebeu que já havia passado muito tempo desde a época em que brincava com os cubos coloridos,esses,no entanto,um tanto envelhecidos,perdidos num amontoado qualquer de suas conquistas.Ela se sentia desvanecer,pois a cobertura em copacabana,ja não era tão bacana,nos dias ruins,o automóvel permanecia imóvel,então tentava fazer qualquer coisa para preencher uma coisa qualquer que ela se confundia,com a eterna pergunta "se teria um dia","se se permitiria",se seus olhos estavam tão cansados que deixou passar.A cada pensamento se partia,mas ela fazia questão,ainda que no chão,manter aquele salto n°15 em ação,disso ela não abria mão,que era pra poder se sentir mais alta,esquecer de toda falta,respirar melhor,não se sentir tão na pior.Na cozinha tentava fazer qualquer coisa para comer ou talvez tomasse um sorvete,mas nesse momento nada a satisfazia,então largou tudo pra lá e foi dormir de barriga vazia.A cama parecia um formigueiro,não conseguia dormir direito,o cinzeiro transbordava o dia inteiro.Em uma hora de cansasso o corpo pediu colo,pediu sossego.Se lembrou de um sonho,um sonho de vida e sonho de sonho sonhado durante a noite,e foram tantas as noites.Tomou ar e deixou o dirigível,a cobertura bacana,os poços e as caldas e resolveu ir à praia,expor o seu corpo branco ao vento,as suas belas curvas, sem mãos que a tocassem,apenas com algumas canções na bolsa.Antes de sair de casa ,escutou uma citação na rádio:"Mas tu não deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Então,se sentiu feliz,mais confiante,pois,se lembrou que havia cativado coisas lindas.Desligou o rádio e partiu.
A manhã ainda estava cinza, escura, e a sua visão ainda um pouco desconfiada,obscura, mas tudo bem, ela era da alta costura.Chegando à praia ela pediu permissão ao mar,para nele adentrar,mergulhar tão fundo e perceber que uma proteção pedida,tão sentida não poderia te deixar,era a sua fé que pedia para voltar,uma esperança que voltava a lhe habitar.Olhou para o lado e avistou um cara,ele era magro,um pouco desajeitado,cara de canalha-e nelson rodrigues já não dizia que todo canalha é magro?!-ela percebeu a solidão nos olhos no moço,uma solidão doce,leve,sem complemento.Ela engoliu aquele orgulho de proteção e foi juntar "as" solidão,não tinha nada em mente,nenhuma segunda intenção,mas achou que depois de tanto tempo meio vaga,meio cheia,e tão cansada de "ser meia",de andar por qualquer direção e cansada ainda de ouvir que quando se esta perdido serve qualquer direção,decidiu compartilhar as idéias,mostrar para alguém as canções que levava consigo naquele momento.Chegou perto e tava com toda coragem do mundo,deixou a timidez lá no mar,bem no fundo e pegou em sua mão.Tem coisas que parecem absurdas,ela disse,sem razão,mas quando te vi aqui com esses cubos coloridos,tive uma estranha sensação,não me entenda mal,se bem que não ando muito ligada em compreenção,apenas fique aqui mais um pouco,continue segurando a minha mão,sabe,é o seu jeito,o jeito como brinca com os cubos,as cores que eles causam nos seus olhos.Vejo uma cicatriz em seu peito,mas ela esta um pouco torta,de qualquer jeito,sabia que eu sei costurar?
Então ele disse:Eu vi em seus olhos essas cores perdidas.Eu conserto coisas,sou restaurador de obras de arte,eu as olhos e vejo como elas foram e a partir disso,restauro suas formas e suas cores,a sua essência.Eu posso te ver.
Ali,em meio a uma praia desabitada,eles trocaram as suas canções,entregaram seus corações,sem juras de amor,sem pensar na eternidade,se entregaram a uma simples vontade,pensando apenas em compartilhar as coisas bonitas que há tempos não compartilhavam com ninguém,deixaram o estranhamento,sentindo o momento,percebendo que mesmo com tantas decepções,com tantas armações,às vezes não há mal nenhum em amar alguém por alguns instantes,vale a pena se permitir viver,deixar as coisas acontecerem.
Ela deixou-se invadir pelas cores.
Eram dois meios inteiros e os cubos coloridos.

Pessoal e Intransferível

A faca cega também corta

A fé criada em berço de palha,cresce tão fraca,que no fogo vira cinzas e sua fragilidade se espalha.
Com passos trovejantes,a visão esperneia sonidos emergentes,que se fazem urgentes, para que toda essa gente acorde,levante,escute!
Eu quero ver a sua cara ensaboada,lambuzada com toda essa limpeza,tão crua,tão sua,ver a sujeira escorrer,os olhos irritados,as suas lágrimas de sabão.Você,esparramando os seus sentimentos pelo chão.Remova os sentimentos velhos e os mova para outra direção!-A gente empilha,amontoa e soca no fundo de outro armário,um armário que foi feito pra caber cada pedaço deles,tão seus, mas que não os deixe aos pedaços!
Não há desculpa,não há culpa se a fé é cinza,se são cinzas,ainda que se sinta...
Não importa se não fizer sentido,importa apenas que se sinta...
A mitologia parece absurda,às vezes cruel,mas não deixa de ser linda,essa beleza pode não te interessar como interessa a mim,mas eu não deixo de me interessar por você.
Em cada armário mofado,estão guardados alguns sentimentos sujos,empoeirados,algumas sensações esquecidas,ainda um pouco vivas,mais para adormecidas.Quando estiver sem coragem para se abrir,eu posso tentar te ajudar,te ajudar a sair desse armário,desse antiquário.Eu sempre gostei das coisas antigas,as coisas escondidas.Escolher roupas e sapatos novos,andar por outras ruas,vagar em outros sentidos,senti-los,trocar a cor da maquiagem,ativar a engrenagem,sair de si,sem sumir de si.
Se ainda em outros cantos do seu caminho encontrar aquela fé atormentada,aquela malcriada,diga a ela,diga para que pare de te amolar,pois,a faca cega também corta!-Deve ser a sua cara,a sua cara de morta,a madeira do cabo um pouco velha,a lâmina um pouco torta,a visão sem corte,esse formato sem recorte,tão diferente das facas empilhadas no faqueiro,das facas usadas pelos açougueiros.Então corta logo,corta essa,corta essa fé afiada e as suas cordas vocais desafinadas!
Uma fé que corta,uma faca que cega...sem os olhos
Uma faca torta,uma fé que se nega...sem os pés
A faca cega também corta,a fé afiada também cega!