"Perdas e Danos"

Você,que sempre prezou os valores,que se dizia tão certo dos seus.Me lembro de quando me falava da importância de tê-los e preservá-los.Do quanto achava que eu estava vazia deles,cheia de anseios e preocupações banais,do quanto eu andava perdida,da minha pouca fé na vida.Eu ficava mal,sei que você não imaginava o quanto,a tamanha dor do meu pranto.É bem verdade que me perdi,que desconhecia a fé,mas saiba:eu tinha os meus valores e eles eram tão valiosos para mim quantos os seus eram para você.Ainda me perco e,gosto que seja assim,mas hoje eu tenho uma fé e outros valores que se acrescentam aos antigos.E eu gostaria de saber em que momento você se perdeu dos seus.Aonde estavam aqueles valores tão bonitos quando eu precisei deles!?Fico triste em saber que para você,se perder,não é tão pulsante quanto é para mim,que você acrescenta perdas a mais perdas.Que na corrupção do seu copo,há olhos flamejantes de sonhos;é difícicil explicar!Há tanto o que questionar e nada para cobrar.Não há divida,há um amor mal pago.Amor bandido; é o que você me disse...

Eu não gosto de brincar

Você diz então o que eu precisava ouvir,eu queria,eu o queria.Me deixa dias com aquelas palavras certamente mal escritas na cabeça.Não consigo apagá-las e fico relendo aquele emaranhado de letras,tentando conseguir sentir ainda alguma esperança.Agora,eu só sinto a crueldade do seu silêncio.E eu o odeio!Odeio a sua beleza,os seus olhos crus de gato,a sua escrita perfeita e estúpida.A minha idealização romântica é tão inevitável,tão desconfortável.Quero o divórcio!Separação total de bens desse romantismo torto.É o corpo enlouquecido,procurando alguma outra distração.Não sei o que fazer com tantos pensamentos atropelados,com estas mãos desgovernadas.Não entendo porque as pessoas brincam assim.Imagino que seja eu que não sei brincar.Eu poderia até tentar,mas me jogaram um balde de água fria na hora de acordar e agora estou toda molhada e não estou a fim de escorregar.Tá certo que eu sempre gostei um pouco de apanhar.Acho válido!Masoquistamente romântico.As ideias fervilham e abrilhantam após uma surra.Mas até ai perder os dentes?Assim eu não gosto de brincar.

À Rejeição

Eu possuo uma empatia profunda com a rejeição.Preciso dela!Preciso dos seus cuidados rejeitadamente rejeitosos para me inspirar,para me deixar mais forte e poder continuar.
Empatia não significa gostar e, eu a detesto,sinto por ela grande desprezo,eu a rejeito!
Eu a rejeito,rejeição,por ser assim tão sem coração!Por andar de mãos dadas com minhas paixões e me dizer caladamente:Não!Pelo seu não busco outra satisfação.Outro meio de não me lembrar de você.Mas eu sinto gosto pelo seu não,o gosto de avistar outros caminhos.Ainda que sem direção,eu necessito de me perder!Mas confesso odiar perder pra você;me perder por você...
"...Our love goes under the knife/The heart was rejected by the host"
* Charlotte Gainsbourg - The Operation





Cansada de viver a vida do mundo,de ser lavada por esse rio imundo,levada por essa enchente de gente trépida e faminta,engolindo a água extinta,aguando o instinto da terra nas costas,fazendo brotar um jardim de cactos,o chão árido do corpo,o movimento quente da enxurrada e eu me levanto.Eu vejo nuvens pesadas,o céu amarelado de fim de tarde abafada,mofada,e ele desaba,desagua o mijo do seu ventre,a sua vergonha.
Hoje,eu queria dar um tiro no mundo,um tiro de empatia na boca do universo,juntar cada gota espalhada de sangue sujo, fazer um suco de crueldade e enterrá-lo num caixão sem vida...
A morte quando rouba a alma,deixa os olhos negros, feito duas jaboticabas...
Da terra que te cobre,brotarão flores
Eu transformarei suas cinzas,numa bela roseira
e enfeitarei a sala
Cada galho será uma parte sua,uma lembrança
uma parte do meu amor
e em cada folha verde e amarela serão os seus olhos
as suas marcas pelo meu corpo
e te eternizo em mim
Farei dos seus pedaços uma pulseira
e te levarei comigo
Dos meus sentimentos,
te escrevo esses versos
Da minha saudade
cada botão que se abrirá

À minha Nancy



Eu sempre fui louca por gatos,não podia ver um na rua que trazia pra casa,eu não me aguentava,não aguentava ver aquelas criaturinhas abandonadas e,por conta disso,minha mãe ficava louca comigo.Parecia uma maldição,perdi vários gatinhos,com tristeza,mas com certo desapego ainda,já que o tempo de convivência sempre havia sido curto demais.Eu ainda estava no colégio,mais especificamente,na aula de educação física,eu tinha acabado de perder uma gatinha e queria outra a todo custo.Ela estava lá,jogada no mato,atrás da quadra,tão sozinha e indefesa,tão pequenina,nem tinha desmamado,seu miado era sofrido,estridente.Não tinha completado 1 mês,provavelmente foi abandonada pela mãe.Claro que eu a peguei.A trouxe para casa de bicicleta,no caminho,ela se grudava a mim feito um bichinho acuado,dava pra sentir que era arisca,que ainda tava sentida.Quando a encontrei,estava cheia de remela nos olhos e por conta disso não os abria,cheguei por alguns instantes,a achar que fosse cega.Estava cheia de carrapichos pelo corpo e eu cheia de vontade de cuidar dela.Como ainda era muito novinha,comprei uma mamadeira ,para dar leite.Para a sarna, óleo com enxofre,para as remelas,àgua boricada.Eu, assim como pelos felinos,era enlouquecida por punk rock e adorava Sid & Nancy,então a batizei de Nancy.Quando ela foi crescendo me deu vários sustos com seus sumiços gatunos,eu ficava desesperada,era ela voltar que quase a sufocava de tanto apertar,mas gata arisca que era,me deixava sempre toda arranhada,mas eu não me importava.Todos os dias quando chegava do colégio,ela vinha em minha direção e me escalava,literalmente,começava da calça e vinha até o pescoço,acho que só não chegava até o cabelo,porque eu a tirava.Fiquei uma época morando com meu pai ,e quando vinha à casa da minha mãe,ela não "falava" comigo,me mostrava os dentes,ela ficou magoada,ficou rancorosa até,eu diria.Mas o tempo em que estive fora,ela dormia sempre no meu quarto,mas não,não é porque gatos se acostumam com o lugar,era porque aquele lugar era dela.Era nosso.Assim que voltei para casa,ela voltou a ficar de boa novamente,e retomamos nossa relação.Acho que ela se sentiu abandonada por mim,lembranças de sua infância.Durante à noite,ficava perambulando por aí,então eu deixava as janelas abertas,que é pra quando ela voltasse,fosse para o quarto.Às vezes me acordava no meio da noite com miados pedintes,para fazer carinho e era tão bonitinha,tão fofinha.Sempre que eu chegava de algum lugar vinha me receber,se esfregar entre minhas pernas.Deitava no meu colo,se irritava,me arranhava e saia correndo feito uma maluca, e ela me irritava tanto quando fazia isso.Se eu fosse fazer uma lápide escreveria:Aqui jaz uma gata selvagem que gostava de sorvete.Sua personalidade era forte,queria que hoje ela tivesse sido forte assim.Sabe,uma ironia,uma piada de humor negro, fui dar vacina contra raiva,pra que não acontecece nada à ela,mas acabou tendo um choque anafilático.Rasguei o grito em praça pública.Foi tão triste ver os seus olhos verdes,ficarem pretos,seu brilho,ficar fosco.Ela era minha companheira,minha menina dos olhos,eu podia ver cada sentimento dentro deles,os olhos de gato mais lindos que eu já vi.A plantei no jardim de casa,vou plantar uma roseira junto dela.Eu pedi à Deus e até à São Francisco de Assis para que guarde,proteja e abençoe sua pequena alma atormentada.Eu a amava tanto.À minha Nancyta,que descanse em paz!
A foto tá ultrapassada
passada à ferro
passada à limpo
As idéias ultrapassando as fotos
idéias sujas passadas à limpo
As idéias e as fotos
mudando de foco
indo pro ferro
carimbadas no mundo

A Costureira e o Restaurador

"A menina encaminhou-se para lá e começou a brincar com uns cubos coloridos. Depois começou a crescer crescer crescer. Não se casou, não teve filhos, comprou um automóvel, um apartamento de cobertura em Copacabana e uma casa em Poços de Caldas. "
Continuando a história...

Mas um dia ela sentiu os poços se secarem,e as caldas já não possuiam o mesmo gosto.O gozo se tornara cínico.Percebeu que já havia passado muito tempo desde a época em que brincava com os cubos coloridos,esses,no entanto,um tanto envelhecidos,perdidos num amontoado qualquer de suas conquistas.Ela se sentia desvanecer,pois a cobertura em copacabana,ja não era tão bacana,nos dias ruins,o automóvel permanecia imóvel,então tentava fazer qualquer coisa para preencher uma coisa qualquer que ela se confundia,com a eterna pergunta "se teria um dia","se se permitiria",se seus olhos estavam tão cansados que deixou passar.A cada pensamento se partia,mas ela fazia questão,ainda que no chão,manter aquele salto n°15 em ação,disso ela não abria mão,que era pra poder se sentir mais alta,esquecer de toda falta,respirar melhor,não se sentir tão na pior.Na cozinha tentava fazer qualquer coisa para comer ou talvez tomasse um sorvete,mas nesse momento nada a satisfazia,então largou tudo pra lá e foi dormir de barriga vazia.A cama parecia um formigueiro,não conseguia dormir direito,o cinzeiro transbordava o dia inteiro.Em uma hora de cansasso o corpo pediu colo,pediu sossego.Se lembrou de um sonho,um sonho de vida e sonho de sonho sonhado durante a noite,e foram tantas as noites.Tomou ar e deixou o dirigível,a cobertura bacana,os poços e as caldas e resolveu ir à praia,expor o seu corpo branco ao vento,as suas belas curvas, sem mãos que a tocassem,apenas com algumas canções na bolsa.Antes de sair de casa ,escutou uma citação na rádio:"Mas tu não deves esquecer.
Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas". Então,se sentiu feliz,mais confiante,pois,se lembrou que havia cativado coisas lindas.Desligou o rádio e partiu.
A manhã ainda estava cinza, escura, e a sua visão ainda um pouco desconfiada,obscura, mas tudo bem, ela era da alta costura.Chegando à praia ela pediu permissão ao mar,para nele adentrar,mergulhar tão fundo e perceber que uma proteção pedida,tão sentida não poderia te deixar,era a sua fé que pedia para voltar,uma esperança que voltava a lhe habitar.Olhou para o lado e avistou um cara,ele era magro,um pouco desajeitado,cara de canalha-e nelson rodrigues já não dizia que todo canalha é magro?!-ela percebeu a solidão nos olhos no moço,uma solidão doce,leve,sem complemento.Ela engoliu aquele orgulho de proteção e foi juntar "as" solidão,não tinha nada em mente,nenhuma segunda intenção,mas achou que depois de tanto tempo meio vaga,meio cheia,e tão cansada de "ser meia",de andar por qualquer direção e cansada ainda de ouvir que quando se esta perdido serve qualquer direção,decidiu compartilhar as idéias,mostrar para alguém as canções que levava consigo naquele momento.Chegou perto e tava com toda coragem do mundo,deixou a timidez lá no mar,bem no fundo e pegou em sua mão.Tem coisas que parecem absurdas,ela disse,sem razão,mas quando te vi aqui com esses cubos coloridos,tive uma estranha sensação,não me entenda mal,se bem que não ando muito ligada em compreenção,apenas fique aqui mais um pouco,continue segurando a minha mão,sabe,é o seu jeito,o jeito como brinca com os cubos,as cores que eles causam nos seus olhos.Vejo uma cicatriz em seu peito,mas ela esta um pouco torta,de qualquer jeito,sabia que eu sei costurar?
Então ele disse:Eu vi em seus olhos essas cores perdidas.Eu conserto coisas,sou restaurador de obras de arte,eu as olhos e vejo como elas foram e a partir disso,restauro suas formas e suas cores,a sua essência.Eu posso te ver.
Ali,em meio a uma praia desabitada,eles trocaram as suas canções,entregaram seus corações,sem juras de amor,sem pensar na eternidade,se entregaram a uma simples vontade,pensando apenas em compartilhar as coisas bonitas que há tempos não compartilhavam com ninguém,deixaram o estranhamento,sentindo o momento,percebendo que mesmo com tantas decepções,com tantas armações,às vezes não há mal nenhum em amar alguém por alguns instantes,vale a pena se permitir viver,deixar as coisas acontecerem.
Ela deixou-se invadir pelas cores.
Eram dois meios inteiros e os cubos coloridos.

Pessoal e Intransferível

A faca cega também corta

A fé criada em berço de palha,cresce tão fraca,que no fogo vira cinzas e sua fragilidade se espalha.
Com passos trovejantes,a visão esperneia sonidos emergentes,que se fazem urgentes, para que toda essa gente acorde,levante,escute!
Eu quero ver a sua cara ensaboada,lambuzada com toda essa limpeza,tão crua,tão sua,ver a sujeira escorrer,os olhos irritados,as suas lágrimas de sabão.Você,esparramando os seus sentimentos pelo chão.Remova os sentimentos velhos e os mova para outra direção!-A gente empilha,amontoa e soca no fundo de outro armário,um armário que foi feito pra caber cada pedaço deles,tão seus, mas que não os deixe aos pedaços!
Não há desculpa,não há culpa se a fé é cinza,se são cinzas,ainda que se sinta...
Não importa se não fizer sentido,importa apenas que se sinta...
A mitologia parece absurda,às vezes cruel,mas não deixa de ser linda,essa beleza pode não te interessar como interessa a mim,mas eu não deixo de me interessar por você.
Em cada armário mofado,estão guardados alguns sentimentos sujos,empoeirados,algumas sensações esquecidas,ainda um pouco vivas,mais para adormecidas.Quando estiver sem coragem para se abrir,eu posso tentar te ajudar,te ajudar a sair desse armário,desse antiquário.Eu sempre gostei das coisas antigas,as coisas escondidas.Escolher roupas e sapatos novos,andar por outras ruas,vagar em outros sentidos,senti-los,trocar a cor da maquiagem,ativar a engrenagem,sair de si,sem sumir de si.
Se ainda em outros cantos do seu caminho encontrar aquela fé atormentada,aquela malcriada,diga a ela,diga para que pare de te amolar,pois,a faca cega também corta!-Deve ser a sua cara,a sua cara de morta,a madeira do cabo um pouco velha,a lâmina um pouco torta,a visão sem corte,esse formato sem recorte,tão diferente das facas empilhadas no faqueiro,das facas usadas pelos açougueiros.Então corta logo,corta essa,corta essa fé afiada e as suas cordas vocais desafinadas!
Uma fé que corta,uma faca que cega...sem os olhos
Uma faca torta,uma fé que se nega...sem os pés
A faca cega também corta,a fé afiada também cega!
É hora de tirar essa roupa,essa capa de super-heroína aposentada,esquecer os focos passados,aquelas preocupações atadas de medos,anseios banais,deixo-os agora num canto qualquer,numa busca permanente de aquecer os meus vícios,os meus desejos e,desfazendo da fantasia,voltam-se os medos,os anseios.Às vezes um tanto descrente,mergulhava em noites tempestuosas,tão tristes quanto calorosas,submersas de profundidade,de abandono,do choro escondido na sujeira ilusória do latrocínio de corações e,aos carentes,um abraço esquecido,desaquecido, é arremessado como num jogo de dados.Então,me pergunto:e agora,qual fantasia devo vestir;do que devo me despir?A gente vive procurando,tentando solucionar coisas que estão impostas,que nos guiam sem que nos demos conta,um jogo de pega ladrão e,quem é o ladrão?Como roubar nesse jogo,trapacear as coisas dadas do cotidiano?Sem crueldade,sem passar por cima,por favor!Quem agora consegue me ouvir para que eu possa me endireitar em sua direção,acompanhar a sua percepção e voltar à nostagia dos meus 15 anos-sem baile de debutante-, e voltar a acreditar,voltar ainda que tragicamente,àquela sensação de morte romântica,idealista,revolucionária...Ei,amigo!Vamos sair comigo por ai e chutar os lixos da rua,entorpecer as idéias para afirmar a nossa revolta!Enobrecer a ressaca do amanhã,à ressaca moral de todos os dias.Ao lixo que jogam em cima de nossas cabeças, eu agradeço de tê-los junto a mim nessa jornada,alimentando minhas inspirações e tormentos, para que eu continue abastecendo o saco de pancadas dos meus pensamentos e,ainda que me firam, eles não me cegam.Às vezes as lentes ficam embaçadas,mas eu tenho um bom óculos!

Quando gente vira poste,quando poste vira gente

O olhar se desfez em fumaça,ficou turvo,um pouco sem graça,percebendo a iniquidade que o cercava,eram vultos rápidos demais para notá-los,espertos demais para alcançá-los,tudo que podia sentir era uma grande sensação de perda,perda de identidade,de amor,de alma e já não havia mais espírito que suportasse,o espírito da coisa,de nada mais valia.São coisas demais,não havia visão que suportasse,não havia cachaça que aliviasse.Ele até que pediu suporte,mas com tantos cortes...
Acabou por se agarrar num poste e fez dele seu suporte,pois,com tanto peso de mundo,com o pesar que lá no fundo,desequilibrava,não havia pernas que suportassem,nem drogas que acalmassem.Sem visão,sem direção,desnorteado!Vozes,sussurros,gritos,choros,passos de pressa,passos amarrados,gargalhadas,grilhões,tiros,beijos,palavras vazias,ásperas,doces,amargas,ácidas,assobios.Ele sentia vibrações,mas já não ouvia.Nem mesmo seu grito de agonia...
Em vão!
Agora não passava de um poste,ele foi tomando a forma de seu instrumento de resistência e,realmente postes não vêem,não ouvem,não andam,não gritam,não assobiam.Ficou ali, estancado feito estaca,o peito cimentado,a alma fraca.Agora não amolaria mais ninguém,pensou:Nem faca!
O olhar acinzentado que não refletia,tinha esperança,mas ele sabia,ninguém enxergaria.
Alguém que lhe estendesse a mão,que tivesse um bom coração,tanto concreto que havia se esquecido de sua condição...
Postes não possuem mãos!
Eu vou despedaçar a sua pornografia ingrata
A sua visão de sucata
Eu a jogarei no lixo
Seus desejos pobres
Eu vou vendê-los
Tão barato quanto a sua carne
E todos esses sentimentos traídos
Moídos desastrosamente
Não sei o que fazer com eles
Irei juntar os miúdos que você se esqueceu de levar de mim
Juntar cada pedaço do seu amor
Desse amor descuidado
Coitado!
a gente pode escolher o peso ou a falta de impacto
podemos ser a flor ou o cacto
podemos afundar na àgua ou na terra
paz ou guerra
o espelho que reflete ou os seus cacos
tropeçar no chão ou no buraco
ser uma boneca ou um palhaço
o silêncio ou o estardalhaço
são todos animais rondando suas presas
enfeitiçando com seus movimentos sedutores
suas poses de atores
dá pra ver brilhando aquelas enormes teias
suas vitimas indefesas
é quando as paixões sussurram
eles vem tão devagar
prontos para te pegar
é quando os invasores te inundam
já é tarde para cair em si
a cara esmurrada
a carne desnuda
as ilusões retalhadas
foram tantas as pancadas que eu nem vi
se ao menos antes de me adentrar eu pudesse consentir
então eles surgem com seus rodos a fim de me enxugar
se ao menos aquelas mãos eu pudesse decifrar
eu nem mesmo as pude sentir
as emoções salivavam na boca vazia
causando náuseas no estômago oco
o soco
na minha boca se desfazia

Entorpecência

A bebedeira cáustica do malandro
vem tombando,quebrando as vidraças da visão
Aquela embriaguez ensandecida
transpassando a lucidez surda
Arranca tímpanos, estoura o peito
Maltrata a alma
Com seu grito torpe
Palavras errantes, desconcertantes
Desconcertando os passos
O caminho distorcido do fraco
Dos pés enfiados num buraco
A ilusão sorrateira
Emergindo da noite traiçoeira
É quando lhe ofuscam os sentidos
Se perde o riso
Os olhos rasos d'agua
Um equilíbrio bambo na tábua
A secura sem propósito de um beijo
Tal como o gosto estragado do queijo
Enxergar com os olhos da escuridão do outro
Desmedir a visão por tão pouco
Se perder em vários rostos
Vagar por tantos corpos
Habitar uma vida em cada copo
As unhas afiadas da mulher louca
Sua boca desfigurada e a voz rouca
A transmissão da rádio anuncia sua confusão
Nas ruas escuras vem andando sua solidão
Junto às sombras noturnas
Estende-se as mãos
Á uma companhia perversa e sem coração
Na noite passada, roupas de cama desarrumadas, vestido amarrotado, peito desabotoado, a maquiagem borrada, gemido estancado,abafado no travesseiro,as lágrimas inundando o corpo junto à água fria do chuveiro, no banheiro, a privada se desfez com a imagem revoltada do meu jantar.
Na noite passada, fui comida mal passada!
Abriram o zíper que há entre minhas pernas, fui comida mal passada!
Eu me tornei o meu jantar!

Faça,Fuce,Force

"Faça, Fuce, Force
Mas!
Não fique na fossa
Faça, Fuce, Force
Mas!
Não chore na porta...
Faça, Fuce, Force
Vá!
Derrube essa porta
Trace, Fuce, Force
Vá!
Que essa chave é torta..."

Raul Seixas
você pode aprisionar um corpo
encaixotar uma cabeça
chutar um cachorro
mostrar os dentes à qualquer um
achar que está tudo certo
que está tudo bem ser um idiota
você,pisando sorrateiro no jardim da esquina todas as manhãs
matando algumas flores todos os dias
acordar cada dia de uma cor
um dia de cada vez,uma por vez
sentir o perfume no ar,se ainda conseguirá o alcançar
sentir o que ainda pode se sentir
seu prazer sórdido
seus passos dormentes
seus pés e suas correntes
sua cabeça demente
seu semblante de doente
deixe-me ver
mais uma vez
mostre-me como estão podres os seus dentes
como está razo o seu sorriso
ande,rasgue essa boca
deixe-me ver como você ainda consegue sorrir
estuprando tantas flores,causando tantas dores por aí

Seu jogo

(...)Seu sangue é híper inflamável
Uma faísca para explodir
Recolha a sua insignificância
Há tantos outros por aqui

Remédio que caiu do céu
Para curar a sua insegurança
Se entorpecendo não é vida
É a sua angústia contida
Angústia contida
Angústia contida
O anjo se mordeu, o veneno está embutido
Agora noite, vida, turma, sexo tem sentido(...)

Plebe Rude

Não vá se perder por ai!!!

Veja como vem
Veja bem
Veja como vem
Vai, vai, vem
Veja bem
Como vai, vem
Veja como vai
Veja bem
Veja bem como vem
Vai vem se ela vai também
Cuidado meu amigo
Não vá se estrepar
Não queira dar um passo mais largo
Que as pernas podem dar
Não se iluda com um beijo
Uma frase ou um olhar
Não vá se perder por aí...

Veja como vem
Veja bem
Veja como vem
Vai, vai, vem
Veja bem
Como vai, vem
Veja como vai
Veja bem
Veja bem como vem
Vai vem se ela vai também
Você é bem grandinho
Já pode se cuidar e
Ir seguindo o seu caminho
Sempre errando até um dia acertar
Mas não tenha muita pressa
Vá tentando devagar
Só não vá se perder por aí...

Mutantes

Ta embaçado!


Ela ta fora do ar,ta procurando por sinal,acho que depois de uns tapinhas se pá ela volta hein,vamo vê,por enquanto,não essa tv,porque ta foda,ela já desligou,ela já voltou,agora resolveu que ta em crise,não aguento essa tecnologia,estão pensando sozinhas,inclusive ela disse que precisa pensar,disse que precisa descansar,diz que não aguenta mais se ligar.Então ela começou a filosofar:(que merda,logo hoje que eu queria ficar ali,tranquila,sem pensar em nada,ela resolve que está em crise?)esse lance de sintonia,sabe como é que é,eu ando cansada man,eu ando sintonizada com outras paradas,essas imagens e sons que saem de mim, já não me tocam mais,Clarice já disse:(dai eu pensei:puuuuuta,juraaa,Clarice?Agora?Ahhh nãaaao! Logo vi que ela devia mesmo é ta sintonizada com o mundo dos mortos,então ela o reproduz como vocês podem perceber)"ou toca,ou não toca".Nossa, dai ela ficou muuuuito chateada quando eu falei pra ela parar de drama,falei,menos querida,hoje é domingo,aos domingos a gente tem o direito de ficar "burra"(nessa hora ela ficou muito ofendida,achei até que ia pifar de vez!).Quando eu acho que não,la vem ela com uma das letras profundas de chico buarque,la vai:"tem dias que a gente se sente,como quem partiu ou morreu(...)"(puta,nessa hora eu quis assim...cortar os pulsos!),dai eu desliguei ela e fui dormir!Mas ela não,ficou cantarolando,só pra me deixar mal,aquela picareta,olha só o nipe das músicas:"(...)Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorrro,ano passado eu morri mas esse ano eu não morro(...)";(...)Joga pedra na Geni,joga bosta na Geni,ela é feita pra apanhar,ela é boa de cuspir(...)".Sério,eu vou matar o imbecil que me vendeu essa tv.

The Seventh Seal


Chess With Death
Ingmar Bergman

Prateleiras

Arrumei meu quarto a semana passada,ele estava um caos,pra saber que não estou brincando encontrei uma barata andando em minhas roupas,ai nãaao,então eu passei e dobrei minhas roupas,tirei a poeira dos comodos,todos eles bem acomodados,limpei o chão,desembaracei os cabelos de minhas bonecas,organizei as prateleiras.E eu realmente não consigo acreditar no quanto ainda estou desarrumada,amarrotada,empoeirada,desacomodada,suja,embaraçada,desorganizada.
Eu organizei as prateleiras?!Foi isso!Puta,não acredito,esqueci de organizar as prateleiras!
Há um buraco no vazio,e ele está cheio de coisas.O vazio esconde as coisas cheias que existem no buraco.É preciso entrar no buraco para encontrar coisas.
Assim, preciiiiiso mesmo,não é não,mas é bacana encontrar coisas,já não digo o mesmo de entrar no buraco,mas não custa nada dar uma entradinha ali,aprender a enxergar no escuro,é aquele lance:"quem não arrisca,não petisca".Mas vamos ai,adentrar buraco adentro,buraco a fora,se encher de coisas e colocá-las pra fora.
Quando for nadar, penso que é importante em ir bem fundo,penso,não disse que é,mas sabe que é muito chato ficar na superfície?

Girls Just Wanna Have Fun

"...Some boys take a beautiful girl
And hide her away from the rest of the world
I wanna be the one who walks in the sun
Oh girls they wanna have fun
Oh girls just wanna have..."