À minha Nancy



Eu sempre fui louca por gatos,não podia ver um na rua que trazia pra casa,eu não me aguentava,não aguentava ver aquelas criaturinhas abandonadas e,por conta disso,minha mãe ficava louca comigo.Parecia uma maldição,perdi vários gatinhos,com tristeza,mas com certo desapego ainda,já que o tempo de convivência sempre havia sido curto demais.Eu ainda estava no colégio,mais especificamente,na aula de educação física,eu tinha acabado de perder uma gatinha e queria outra a todo custo.Ela estava lá,jogada no mato,atrás da quadra,tão sozinha e indefesa,tão pequenina,nem tinha desmamado,seu miado era sofrido,estridente.Não tinha completado 1 mês,provavelmente foi abandonada pela mãe.Claro que eu a peguei.A trouxe para casa de bicicleta,no caminho,ela se grudava a mim feito um bichinho acuado,dava pra sentir que era arisca,que ainda tava sentida.Quando a encontrei,estava cheia de remela nos olhos e por conta disso não os abria,cheguei por alguns instantes,a achar que fosse cega.Estava cheia de carrapichos pelo corpo e eu cheia de vontade de cuidar dela.Como ainda era muito novinha,comprei uma mamadeira ,para dar leite.Para a sarna, óleo com enxofre,para as remelas,àgua boricada.Eu, assim como pelos felinos,era enlouquecida por punk rock e adorava Sid & Nancy,então a batizei de Nancy.Quando ela foi crescendo me deu vários sustos com seus sumiços gatunos,eu ficava desesperada,era ela voltar que quase a sufocava de tanto apertar,mas gata arisca que era,me deixava sempre toda arranhada,mas eu não me importava.Todos os dias quando chegava do colégio,ela vinha em minha direção e me escalava,literalmente,começava da calça e vinha até o pescoço,acho que só não chegava até o cabelo,porque eu a tirava.Fiquei uma época morando com meu pai ,e quando vinha à casa da minha mãe,ela não "falava" comigo,me mostrava os dentes,ela ficou magoada,ficou rancorosa até,eu diria.Mas o tempo em que estive fora,ela dormia sempre no meu quarto,mas não,não é porque gatos se acostumam com o lugar,era porque aquele lugar era dela.Era nosso.Assim que voltei para casa,ela voltou a ficar de boa novamente,e retomamos nossa relação.Acho que ela se sentiu abandonada por mim,lembranças de sua infância.Durante à noite,ficava perambulando por aí,então eu deixava as janelas abertas,que é pra quando ela voltasse,fosse para o quarto.Às vezes me acordava no meio da noite com miados pedintes,para fazer carinho e era tão bonitinha,tão fofinha.Sempre que eu chegava de algum lugar vinha me receber,se esfregar entre minhas pernas.Deitava no meu colo,se irritava,me arranhava e saia correndo feito uma maluca, e ela me irritava tanto quando fazia isso.Se eu fosse fazer uma lápide escreveria:Aqui jaz uma gata selvagem que gostava de sorvete.Sua personalidade era forte,queria que hoje ela tivesse sido forte assim.Sabe,uma ironia,uma piada de humor negro, fui dar vacina contra raiva,pra que não acontecece nada à ela,mas acabou tendo um choque anafilático.Rasguei o grito em praça pública.Foi tão triste ver os seus olhos verdes,ficarem pretos,seu brilho,ficar fosco.Ela era minha companheira,minha menina dos olhos,eu podia ver cada sentimento dentro deles,os olhos de gato mais lindos que eu já vi.A plantei no jardim de casa,vou plantar uma roseira junto dela.Eu pedi à Deus e até à São Francisco de Assis para que guarde,proteja e abençoe sua pequena alma atormentada.Eu a amava tanto.À minha Nancyta,que descanse em paz!

Um comentário:

Unknown disse...

ela está bem amiga. Não poderia ter tido uma dona melhor. te amo.