Desconcerto

A máquina de sustentação do corpo está no concerto,andou perdida por esses dias,andou ainda por lugares distantes,está difícil de encontrar o caminho de volta,talvez até nunca volte, talvez não queira realmente voltar,só queira ir. Dizem que foi através de uma conversa com outras máquinas que ela decidiu e disse com um timbre pesado na voz:esse mundo já não o quero mais,aquelas mãos já não me satisfazem,senti durante muito tempo o peso daquele corpo sobre mim,agora estou aqui doente,supostamente doente,parece que minhas teclas estão falhas,que já não produzo como antes,que as palavras que formo estão desconexas! Saia da boca palavras que pareciam erradas,palavras nunca pronunciadas antes,palavras que ao serem proferidas estavam a ferir os ouvidos das outras máquinas,afinal era ela uma máquina doente e estava a fazer muito barulho,havia nela qualquer coisa de maluca. As outras máquinas estavam lá muito felizes,a espera da operação,estavam ansiosas para ficarem bonitas novamente,sem arranhões,sem ferrugem,sem barulho. Havia lá um liquidificador que se achava muito importante em seu papel,dizia ele que estava a sentir muitas saudades daquelas mãos,e que apesar de ter sido arremessado de uma janela,não se importava,pois sentia muita falta do contato com as coisas que eram jogadas para ele. Então a máquina de escrever indagou:qual a sensação de triturar as coisas? O liquidificador respondeu:me sinto importante,homogenizando as coisas,e triturando todos os diferentes. A máquina não compreendia e disse:mas não é preciso tornar tudo igual,as vezes eles querem continuar diferentes. Em tom prepotente respondeu o liquidificador:pois então que continue você com esse seu barulho estranho,com essas palavras amalucadas,e com as teclas tortas,eu quero triturar os diferentes,triturarrrrrrrrrr. Ouviu-se então varias gargalhadas monstruosamente afinadas. Era ela uma máquina de escrever,parecia muito velha perto das outras,parecia cansada,por um momento de loucura até sentiu-se feia,mas era ela muito formosa. Passava dias a observar,na fila de espera,articulando como iria fugir daquele lugar,pensou até em se espatifar,pois para aquelas mãos não queria mais voltar. Agora estava sozinha,podia perceber o olhar condescendente de uma e outra,mas sabia que apesar disso, eram só olhares,ela estava realmente só. Quando finalmente chegara o dia de seu concerto,saia dela sons ainda mais altos,então ela virou para o operante e disse:por favor não me opere!sinto-me doente é daquelas mãos,estou muito lúcida,as palavras que formo são apenas minhas,por isso disseram que estava doente,estou cansada de reproduzir palavras senhor. O senhor olhou-a e disse: maisi qui maquina disaparufusada,essa aqui num devi di tê cuncerto memo não,ta na hora di joga fora! Foi a máquina então para aquele grande liquidificador,a desarticulando cruelmente,triturando-a em pedaaaaços pobrezinha. Passado todo o barulho da violencia,ao meio do silêncio,ouviu-se seu último som que rangia assim: Pois eu num quero ninhum cuncerto,eu nasci pru discuncerto i agora eu to bem filiz purque grunhi bem alto feito porco no abate,e posso vê qui pelu silênciu tudu mundo mi ouviu! O senhor pôde ouvir então qualquer coisa de semelhante entre ele e a máquina e pensou desnorteado,com um sentimento de empatia e dor: Maisi será qui eu fizi bestera?Agora até qui eu intindi u qui essa amalucada tava falanu!

Um comentário:

Unknown disse...

Minha linda...a arte está em vc!!
te amo